Em 2023, feminicídio vitimou 32 mulheres em MS

Vidas perdidas, famílias que choram, filhos que perderam as mães, mães que perderam as filhas partirem. As estatísticas oficiais revelam que 32 mulheres tiveram vidas interrompidas por crimes de feminicídio, das quais 8 ocorreram em Campo Grande. Os números também revelam que os feminicídios sofreram redução comparado a 2022, quando 42 mulheres morreram no Estado, 12 na Capital. A estatística, contudo, continua expressiva e reforça a necessidade de políticas específicas para esse grupo social.;

O assunto é repetitivo, mas de grande importância para evitar que outras mulheres se tornem vítimas. O feminicídio é um crime de ódio que transparece de forma muito agressiva para toda a sociedade, seja pelo o local de crime, o modus operandi, como as coisas acontecem, os motivos banais. Isso fica caracterizado evidentemente em todos os oito feminicídios consumados neste ano em Campo Grande, conforme explicou a delegada titular da Deam (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher) Elaine Benicasa.

Delegada titular da Deam, Elaine Benicasa. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

“É algo batido? sim. Tem que ser algo batido. Repetitivo, para que seja inserido de uma forma tão profunda a ponto que um adolescente quando se vê quase que praticando uma violência contra mulher se sinta constrangido de tanto ouvir, de tanto a mãe falar, de tanto a escola falar. Há informação!”, afirma, acreditando ainda que deveriam incluir na grade das crianças e adolescentes o conceito, o estudo da lei, pois ali que se forma o caráter.

Benicasa faz um balanço sobre o perfil dos autores: muitos deles dizem não se recordam do que aconteceu no momento das agressões. Em vários casos, inclusive no último feminicídio, o autor se recorda de apenas uma facada. A vítima, contudo, foi assassinada com 8 golpes.

No perfil das vítimas que foram mortas pelos parceiros, há uma característica em comum: a vontade de romper o relacionamento. Já entre os autores, a delegada afirma que é comum, nas oitivas, dizerem que amavam as mulheres que mataram.

“A maioria se demonstra arrependida e repetem a frase: ‘Eu amava aquela mulher’. É um perfil padrão ter esse discurso no pós-prisão, em uma conversa informal com os autores”, detalha.

“[No caso mais recente em Campo Grande], o próprio convivente é um senhor, trabalhador, um bom filho, bom amigo de final de semana, mas que em quatro paredes, se demonstra um monstro. O que também é muito comum é esse relacionamento abusivo por trás de todos eles. Não é da noite para o dia. Não foi aquele dia que ele decidiu ter ciume, ter controle e tirar a vida daquela mulher. Quando a gente adentra na vida privada de alguém, sabemos tranquilamente que era um relacionamento de humilhação, controlava, perseguia, agredia fisicamente”, acrescenta.

A principal dificuldade em combater os crimes de violência contra a mulher, além de tentar reeducar os homens, é que em muitos casos a própria vítima não percebe estar em um relacionamento abusivo. Isso acontece, segundo a delegada, porque muitas vezes romantizam esse relacionamento e não se autovalorizam.

“Uma das principais prevenções é a mulher se autovalorizar, é ela saber que tipo de relacionamento que ela quer ter ao lado, porque quando ela tem essa noção, ela já diz ‘não’ a qualquer tipo de homem, namoro, ficante, que tenha atos dessa forma”, reforça.

Prevenção e rede de apoio

A delegada chegou a dar um exemplo que ocorreu com uma colega. A mulher havia conhecido um rapaz e na primeira semana durante um churrasco na casa de um amigo, a mulher estava mexendo em suas redes sociais, quando o homem arrancou o aparelho da mão dela e colocou em uma mesa com a tela virada para baixo.

“Isso não é normal. Ela já rompeu o relacionamento ali na hora. Ou seja em uma semana, você não tem nenhuma liberdade com aquela pessoa e ela retira o celular da sua mão, percebe-se já um desequilíbrio, que na maioria das vezes vai se agravando. São homens que sim tem ainda essa visão machista de como a mulher deve se comportar do seu lado, como ela deve falar, como ele acha que dela deveria se vestir, o controle financeiro muitas vezes”, explicou.

São esses pequenos, médios e grandes detalhes que a mulher, se ela sabe o que ela quer para ela quanto a relacionamento, consegue identificar.

Agora se a mulher ainda não consegue identificar é importante a rede de apoio, rede de amigas, familiares darem um conselho, um toque. “Mas é muito comum esses relacionamentos que venham mais para frente virarem atos criminosos, estar por de trás deles essas ações de controle excessivo”.

(Reprodução portal TJMS)

Casa da Mulher Brasileira

Na Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande há diversos serviços de atendimento à mulher. Abriga a primeira Vara Especializada em Medidas Protetivas e Execução de Penas do país, Defensoria Pública, Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, há ainda o setor psicossocial, e até abrigo para mulheres com ou sem filhos que correm risco.

A Casa fica na Rua Brasília no Jardim Imá, próximo ao Aeroporto Internacional de Campo Grande.

Vale lembrar que a mulher pode solicitar medida protetiva mesmo sem ter feito registro do boletim de ocorrência, inclusive, o pedido pode ser solicitado online também, no site do Tribunal de Justiça.

(Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

 

Fonte: Jornal Midiamax

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