O único lugar onde eu resolvo minha vida inteira antes de passar o shampoo.
Existe um fenômeno científico, completamente não reconhecido pela ciência, que transforma qualquer adulto cansado em um filósofo premiado assim que a água quente encosta no topo da cabeça. É impressionante. Dez minutos de banho e, de repente, eu viro uma mistura de Clarice Lispector com Sócrates depois de um café forte.
Meus melhores textos nascem ali, no chuveiro. Acho que é o único lugar onde o cérebro, por algum motivo misterioso, resolve funcionar sem travar. No banho eu soluciono meus problemas, reorganizo minha vida, faço terapia comigo mesmo, resolvo discussões imaginárias e até curo feridas emocionais que nem sabia que estavam abertas. Se deixar, eu resolvo os problemas dos outros também, porque, no banho, eu fico generoso.
E não é só isso: no banho eu ganho prêmios. Literalmente. Não na vida real, claro, mas nas minhas fantasias extremamente bem produzidas. Ali eu já recebi troféus, dei entrevistas, expliquei processos criativos profundíssimos, agradeci à academia e saí do box com a sensação de que sou uma pessoa brilhante e incompreendida. Depois eu me seco, visto uma camiseta qualquer e lembro que tudo isso aconteceu enquanto eu tentava tirar o cheiro de cansaço do corpo.
A água quente faz a gente acreditar que tem tudo sob controle. A gente sai do banho achando que vai mudar a rotina, a alimentação, as prioridades, o destino do país. Mas basta pisar no tapete do banheiro para perder 70% da sabedoria e, quando chega na sala, já esqueceu metade das conclusões revolucionárias.
No fim das contas, o banho quente é essa espécie de portal filosófico que nos ilude, mas de um jeito gostoso. Ele não resolve nada de verdade, mas dá uma trégua. Dá a sensação de que, por alguns minutos, a vida ficou mais simples, mais óbvia, mais possível. E, sinceramente, às vezes isso já é o suficiente para continuar. Pelo menos até o próximo banho.


















