O ataque contra a Terra Indígena Iguatemipeguá I resultou na morte de Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, indígena Guarani Kaiowá, que vivia há pouco mais de um ano na comunidade e sustentava a família trabalhando na roça. A segunda morte confirmada pela Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública) é a de Lucas Fernando da Silva, funcionário de uma fazenda da região. Há dois feridos hospitalizados, segundo autoridades.
Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), cerca de 20 homens vindos de uma fazenda cercaram a área, destruíram barracos e efetuaram disparos prolongados.
A Aty Guasu, principal organização política do povo Guarani-Kaiowá, afirma que mais de 40 pessoas estavam acampadas na área da Fazenda Cachoeira. Dos 12 barracos erguidos, 10 foram incendiados logo após a invasão. Vídeo divulgado pela entidade mostra uma mulher correndo para se proteger enquanto tiros ecoam. Em voz trêmula, ela diz que o grupo pede socorro desde as quatro da manhã.
Vídeo:
Duas espingardas calibre 12 usadas foram apreendidas pelas equipes da PF (Polícia Federal) e do IC (Instituto de Criminalística), elas seguirão para exames que buscam esclarecer quem atirou durante o ataque à Retomada Pyelito Kuê. Os peritos também recolheram cápsulas, material biológico e ouviram indígenas que estavam no local.
Dois suspeitos de ataques contra a comunidade foram identificados. Um deles foi reconhecido por um indígena ferido como capanga da fazenda e levado à DPF (Delegacia de Polícia Federal) de Naviraí para prisão em flagrante.
Histórico de conflitos
A região vive uma longa disputa fundiária. Em junho, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) atualizou o grupo responsável por estudar a identificação e delimitação dos territórios Iguatemipeguá II e III, que abrangem quatro municípios do sul do Estado. A retomada ocorria justamente nesse contexto de reivindicação territorial.
Para o MPI (Ministério dos Povos Indígenas), a ação teria sido conduzida por pistoleiros. O governo federal acionou órgãos de segurança, enviou equipes do Demed (Departamento de Mediação e Defesa) e disse acompanhar o caso com atenção. O MPI e a Funai lembraram que, em 3 de novembro, foi criado o GTT (Grupo de Trabalho Técnico), com participação do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar) e do MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos), para debater medidas de mediação em conflitos envolvendo povos indígenas no sul do Estado. As reuniões ocorrem semanalmente.
Segundo o MPI, as retomadas Guarani-Kaiowá se intensificam em resposta ao avanço de agrotóxicos, que estaria causando adoecimento e insegurança hídrica e alimentar. A pasta classificou o assassinato como parte de um cenário de perseguição persistente. A nota oficial encerra com solidariedade à família e à comunidade.
Sejusp no apoio
A Sejusp confirmou as duas mortes e informou que suas equipes atuaram em apoio às forças federais. O suspeito de efetuar os disparos, um indígena também ferido, foi detido pela PM (Polícia Militar) e entregue à PF. A pasta ressalta que a PM não fazia segurança ostensiva na área no momento do ataque. A Polícia Científica acompanha a PF nos exames periciais, incluindo o exame necroscópico.
O secretário de Segurança, Antônio Carlos Videira, disse que o Estado seguirá dando suporte às investigações. O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) informou que a Força Nacional reforçou o patrulhamento na região, numa tentativa de evitar novos confrontos.
Questionada sobre a morte de Lucas Fernando da Silva, confirmada pela Sejusp, a Polícia Federal afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que o óbito está registrado, mas ainda passa por investigação para determinar se houve ligação com o confronto. Segundo a corporação, a apuração busca esclarecer se a morte ocorreu no contexto do ataque ou se decorreu de outra circunstância.
Matéria: Campo Grande News
















