Mato Grosso do Sul passa de 10,2 mil casos de Chikungunya e atinge 73% do número do ano passado

A epidemia de chikungunya avança, e Mato Grosso do Sul já registra 10.268 casos prováveis, apenas nos quatro primeiros meses de 2026. O número equivale a 73% de todo o ano passado, quando foram registrados 14.148 casos. Além disso, 14 sul-mato-grossenses morreram pela doença neste ano.

Entre 2015 e 2024, a soma de todos os casos de chikungunya registrados no Estado foi de 7.143. Ou seja, o total de 2025 representa quase o dobro do registrado em uma década. Os números da doença explodiram no ano passado, em Mato Grosso do Sul, e parecem se repetir em 2026.

Após a explosão da doença em 2025, os registros de chikungunya ainda ultrapassam o ano anterior a cada semana. Mesmo com dados parciais, abril de 2026 já supera o mesmo mês de 2025 em 94%. O salto foi de 2,6 mil casos para 5,2 mil casos.

Os dados estão disponíveis no Painel de Monitoramento das Arboviroses, com dados do Ministério da Saúde.

Doença atinge 96% de MS

A chikungunya já se espalhou por quase todo Mato Grosso do Sul. Segundo dados da SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), 76 dos 79 municípios registraram casos da doença até a Semana Epidemiológica 16, encerrada em 25 de abril de 2026.

No total, o Estado soma 10.268 casos prováveis — 4.290 confirmados e outros 5.978 aguardando exames do Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública). Cidades do interior enviam amostras coletadas em pacientes com sintomas, para serem analisadas em Campo Grande.

As 14 mortes registradas neste ano estão distribuídas em quatro cidades de Mato Grosso do Sul. Dourados concentra a maior parte dos óbitos, com 9 registros, seguido por Bonito e Jardim (2 cada um) e Fátima do Sul (1). No ano passado, foram 17 mortes no Estado.

Dados são do Sinam (Sistema Oficial de Notificação de Agravos) da SES. (Reprodução)

Apenas três cidades não têm notificações no sistema oficial: Alcinópolis, Aparecida do Taboado e Japorã. Nos demais municípios, há registro da doença, o que indica avanço em todo o território sul-mato-grossense.

SES nega epidemia em MS

A incidência de chikungunya em Mato Grosso do Sul chega a 351,1 casos por 100 mil habitantes. Em São Paulo, com relação à dengue, bastou que este número passasse de 300 — limite considerado “muito alto” — para que o estado declarasse emergência sanitária pela epidemia da doença.

No entanto, a SES-MS considera que esse é um “parâmetro importante para avaliar a intensidade de transmissão, especialmente no nível municipal, mas não é, de forma isolada, o único critério para caracterizar uma epidemia em nível estadual”.

A pasta lista cinco fatores decisivos para a definição do cenário de epidemia:

  • Aumento sustentado de casos em relação à série histórica;
  • Dispersão da doença entre os municípios;
  • Confirmação da circulação viral;
  • Impacto nos serviços de saúde;
  • Ocorrência de casos acima do esperado para determinado período e território.

Apenas nos sete dias entre 18 e 25 de abril, Mato Grosso do Sul registrou mais 1.295 casos prováveis de chikungunya. A alta foi de 17% em sete dias. Os números são os maiores da série histórica, com registro de circulação viral em quase todas as cidades.

Os critérios adotados seguem parâmetros nacionais e internacionais, especialmente os estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde, sempre considerando a realidade epidemiológica local“, conclui nota da SES-MS.

Epicentro nacional da chikungunya

Mato Grosso do Sul lidera todos os números relacionados à chikungunya, em comparação com os outros estados do país, desde o início de 2026.

Com 351,11 casos por 100 mil habitantes, a incidência no Estado é quase 20 vezes maior que a média nacional, de 17,7. Mato Grosso do Sul lidera o ranking de incidência, seguido de Goiás (121,8), Minas Gerais (44,2), Rondônia (40,3), Mato Grosso (21,5), Tocantins (16,6) e Rio Grande do Norte (14).

Em todo o Brasil, são 21 mortes confirmadas, 14 apenas em Mato Grosso do Sul — ou seja, 67% das mortes estão concentradas no Estado.

Principais vítimas são indígenas

Hospital de campanha foi montado em quadra de escola indígena para atender casos confirmados de chikungunya. (Reprodução, Prefeitura de Dourados)

Os casos de chikungunya explodiram nas aldeias Jaguapiru e Bororó, na Reserva Indígena de Dourados, onde vivem mais de 20 mil pessoas. No início do ano, este era o epicentro da doença em Mato Grosso do Sul.

Conforme a prefeitura, 2.420 casos de chikungunya foram confirmados entre indígenas, cerca de um quarto do total de Mato Grosso do Sul. Oito das nove mortes registradas no Estado são entre indígenas.

A epidemia de chikungunya escancarou um problema antigo nas duas aldeias, que formam a maior reserva indígena do país. É comum encontrar caixas d’água abertas em quintais, já que não há água encanada. Além disso, ainda há muita gente que não tem informações suficientes sobre a transmissão da doença.

No entanto, até o final de março de 2026, os registros estavam concentrados entre indígenas em Dourados. A partir da 13ª semana (início de abril), houve uma inversão no perfil dos casos, com predominância entre a população não indígena e maior incidência na zona urbana de Dourados.

Chikungunya mata e causa sequelas

A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti e causa dor incapacitante nas articulações, além de febre alta. A orientação principal é procurar um médico imediatamente no primeiro dia de sintomas, principalmente idosos e crianças.

“Ao menor início de febre e dor nas articulações de forma súbita, hoje, no nosso Estado, é chikungunya até que se prove o contrário“, afirma a presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia, médica Andyane Tetila, que atua no HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados).

Geralmente, o quadro de saúde do paciente com chikungunya começa com a febre entre 38°C e 40°C e dor muito forte nas articulações — popularmente chamadas de ‘juntas’. “O início é bastante súbito, a pessoa dorme bem, mas, no meio da noite, acorda com uma dor bastante importante nas articulações”, diz a infectologista.

Segundo o Ministério da Saúde, o vírus chikungunya também pode causar doença neuroinvasiva, que é caracterizada por agravos neurológicos, tais como: encefalite, mielite, meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, síndrome cerebelar, paresias, paralisias e neuropatias.

Óbitos são recorrentes nos grupos de risco, que são pessoas em extremos de idade, como bebês e idosos. Além disso, mais de 50% das pessoas que contraem a doença seguem com os sintomas por anos.

Vacinação

Vacina contra chikungunya. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

A cidade de Itaporã foi a primeira do Estado a iniciar a vacinação contra a chikungunya. A aplicação começou no dia 18 de abril e, nesta fase, é destinada exclusivamente à população de 18 a 59 anos sem comorbidades. Em Dourados, a vacinação começou no dia 27 de abril e abrange as áreas indígenas e a zona urbana da cidade.

Em Mato Grosso do Sul, foram recebidas 20 mil doses, com total previsto para 46,5 mil. Dessas, 7 mil foram encaminhadas ao núcleo regional de Dourados. A distribuição ocorre de forma fracionada, conforme a capacidade de armazenamento da rede de frio, para garantir a conservação adequada dos imunizantes.

Entre o público que não podereceber o imunizante, estão gestantes, lactantes, pessoas imunossuprimidas ou em tratamento oncológico, transplantados recentes, pessoas com doenças autoimunes ou determinadas condições crônicas associadas, além de indivíduos com febre ou que tenham recebido recentemente outros tipos de vacina. As orientações seguem a bula aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Emergência e calamidade

Além de Dourados, que é o epicentro da epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul, Jardim e Itaporã também decretaram situação de emergência em saúde pública pelo avanço da doença.

Entre as medidas possibilitadas pelos decretos de situação de emergência em saúde pública, estão compras de insumos e medicamentos sem licitação e contratação temporária e simplificada de agentes de endemias. Em Jardim, o decreto permite até o ingresso forçado em imóveis com focos de Aedes aegypti.

Em Dourados, a epidemia de chikungunya começou na Reserva Indígena e se espalhou para os bairros rapidamente. Considerando esse cenário, a prefeitura editou decreto declarando situação de calamidade em saúde pública devido à gravidade da epidemia e ao colapso da rede de atendimento.

O governo federal também reconheceu a situação de emergência em Dourados por conta do avanço dos casos. A cidade recebeu mais de R$ 27,5 milhões em recursos federais para medidas de contenção do vírus chikungunya. Além disso, a Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde) atuou por um mês no município.

Epidemia em 23 cidades

Itaporã e Iguatemi entraram na lista de cidades com epidemia de chikungunya na última semana, por registrarem alta no número de casos. Assim, subiu para 23 o total de municípios em situação epidêmica. Confira a lista:

  1. Sete Quedas — 442 casos — incidência 4.020,4
  2. Fátima do Sul — 598 casos — incidência 2.901,6
  3. Douradina — 144 casos — incidência 2.581,6
  4. Paraíso das Águas — 110 casos — incidência 1.996,4
  5. Jardim — 371 casos — incidência 1.547,1
  6. Angélica — 165 casos — incidência 1.537,9
  7. Corumbá — 1.260 casos — incidência 1.308,8
  8. Dourados — 3.091 casos — incidência 1.270,1
  9. Batayporã — 127 casos — incidência 1.185,6
  10. Amambai — 436 casos — incidência 1.108,7
  11. Vicentina — 49 casos — incidência 773,4
  12. Bonito — 170 casos — incidência 718,5
  13. Nioaque — 88 casos — incidência 665,7
  14. Aquidauana — 297 casos — incidência 634,6
  15. Selvíria — 50 casos — incidência 614,1
  16. Costa Rica — 143 casos — incidência 549,2
  17. Guia Lopes da Laguna — 53 casos — incidência 533,3
  18. Jateí — 16 casos — incidência 446,2
  19. Itaporã — 100 casos — incidência 414,3
  20. Antônio João — 38 casos — incidência 408,5
  21. Ladário — 81 casos — incidência 376,4
  22. Figueirão — 12 casos — incidência 339,1
  23. Iguatemi — 42 casos — incidência 304,4

 

Fonte: Jornal Midiamax

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