Suicídio: um problema silencioso, que tem avançado de forma assustadora

O assunto ainda é pouco discutido, mas o suicídio tem crescido e os índices entre jovens e idosos chamam a atenção. A depressão é a principal causa de acordo com especialistas

Enquanto o suicídio segue como sendo um assunto sobre o qual se fala pouco, o número de pessoas que tiram a própria vida tem avançado de forma assustadora. Em São Gabriel do Oeste, foram registrados 7 casos consumados de suicídio entre 01 de janeiro de 2018 e 06 de setembro de 2019. Os dados colhidos para essa matéria são da Polícia Civil do município.

De acordo com dados do Ministério da Saúde de 2017, o suicídio mata mais que o câncer. Ainda segundo os dados, 32 pessoas se matam por dia no país. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Psiquiatria apronta que essa é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Entre idosos, assim como entre pessoas de meia-idade, os índices também avançam.

10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Lucimari Tres, 49 anos era mãe de 4 filhos, duas meninas e dois meninos. Era. Porque em 2016, Lucimari sofreu a dor de perder o filho mais novo, que tirou a própria vida. “Foi o momento mais difícil, tínhamos perdido minha mãe dois meses antes do Lucas se suicidar. Não tínhamos ainda nos recuperado de tamanha perda, veio outra, tão ou maior”, relata Lucimari.

Lucas era um garoto de 15 anos, estudante, alegre e completamente diferente dos garotos da idades, segundo relatos da família. “Ele era intenso, em tudo que fazia. Lucas era aquele garoto que colocava a alma em tudo. Até hoje não conseguimos entender porque ele nos deixou”, conta a mãe que carrega no peito uma gargantilha com as imagens do filho e da mãe. Lucas é mais um jovem nos índices de suicídio em São Gabriel do Oeste.

Desde 2015 o mês de setembro ficou intitulado como Setembro Amarelo, uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Hoje, dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio e divulgar o tema alertando a população sobre a importância de sua discussão.

Depressão é uma das principais causas das mortes por suicídio, segundo a psicóloga Marianna Ferreira Wormsbecher

 O suicídio é um fenômeno multifatorial, que pode estar relacionado a doenças psíquicas, como, por exemplo, a depressão, transtorno bipolar, alcoolismo, abuso/dependência de drogas e esquizofrenia. Hoje, a depressão é a principal causa de morte por suicídio no mundo. Ouvimos a psicóloga Marianna Ferreira Wormsbecher.

 Para ela o grande problema, está na banalização da doença. “Pra mim está tendo uma banalização disso. Eu perdi um ente querido, terminei um relacionamento. Eu fico triste e é normal, esperado e saudável que eu me sinta triste. Mas a sociedade aprendeu a chamar isso de depressão. Só que eu tenho um motivo e estou triste por um período, e depois eu consigo retomar as minhas atividades. Só que as pessoas chamam isso de depressão, e isso não é depressão. E aí quando uma pessoa tem depressão de fato, um transtorno mental, um problema de saúde, as pessoas tratam essa pessoa com depressão como se ela estivesse naquele quadro que não era depressão”.

Para Marianna, o julgamento vindo da própria família e a vida perfeita vendida nas redes sociais agrava ainda mais o quadro depressivo. “A pessoa que tem depressão, ela não sabe porque está mal, porque não consegue reagir, se levantar, diferente da pessoa que está triste por um motivo existente. Aí vem a família que acha que é frescura. A depressão hoje é banalizada, tratam tudo como depressão, e isso faz com que de fato quem está com depressão se sinta a pior pessoa do mundo. Junto com isso vem as redes sociais, que vendem a vida perfeita. A sociedade colocou a depressão como algo normal, quando na verdade, ela é de extrema importância e precisa de tratamento profissional”, afirma Marianna.

Depressão é uma das principais causas das mortes por suicídio, segundo a psicóloga Marianna Ferreira Wormsbecher

De acordo com a psicóloga, 90% dos casos de suicídio por depressão poderiam ter sido evitados, se tratados logo no início. “O suicídio não acontece por um problema que aconteceu hoje, ele é a soma de coisas pequenas que vem acontecendo há dias, meses, talvez anos. Depressão precisa de tratamento, desde o início. A família, amigos, a fé ajudam sim, mas o tratamento profissional é imprescindível com remédio e terapia”, conclui Marianna.

Como se recuperar de tamanha dor?

Sublimar a dor não é algo fácil para uma mãe que perdeu um filho em suicídio. Quem se mata, arrasta consigo a estrutura familiar. Tudo se desmancha à um raio de algumas gerações. A ferida se torna difícil de se fechar.

“Eu procurei ajuda na mesma semana. Sozinhos não conseguimos. Fiz um acompanhamento psiquiátrico. Tomei remédio por um tempo e isso amorteceu a dor e me ajudou aos poucos a ir superando”, conta Lucimari.

Ela relata ainda que teve muito apoio da família e ressalta a parceria com o esposo. “Eu tive todo apoio da minha família, filhos e principalmente do meu esposo, que nunca me apontou o dedo ou me culpou pelo que aconteceu. Nos abraçamos desde o início e choramos juntos, assumimos juntos a dor da perda e isso foi fundamental nesse processo de recuperação, que nunca termina”, finaliza Lucimari.

Mitos comuns sobre o suicídio

·      ‘Quem fala, não faz’ – Não é verdade. Muitas vezes, a pessoa que diz que vai se matar não quer “chamar a atenção”, mas apenas dar um último sinal para pedir ajuda. Por isso, os especialistas pedem que um aviso de suicídio seja levado a sério. “Quando eles falam que vão se matar, eles vão cometer o suicídio. Meu conselho para os pais, é que quando seu filho falar que vai se matar, que eles cuidem, deem atenção. Meu filho falou e não levei a sério. O perdi, pouco tempo depois”, conta Lucimari.

·      ‘Não se deve perguntar se a pessoa vai se matar’ – É importante, caso a pessoa esteja com sintomas da depressão, ter uma conversa para entender o que se passa e ajudar. Não tocar no assunto só piora a situação.

·      ‘Quando a pessoa tenta uma vez, tenta sempre’ – A maior parte dos pacientes que levam a sério o tratamento com medicamentos e terapia não chegam a tentar se matar uma segunda vez. O importante é buscar a ajuda. “A depressão não se cura sozinha. O uso de remédios e a orientação profissional é de extrema importância para a cura da doença”, concluiu Marianna.

Texto e fotos: Celly Carvalho

Fontes: Polícia Civil/ Ministério da Saúde/Organização Mundial da Saude

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