Empreiteiros e produtores rurais de MS estão entre supostos ‘laranjas’ no Banco Master

Empreiteiras e produtores rurais de Mato Grosso do Sul teriam sido usados como laranjas em fraude bilionária que simulava empréstimos tomados com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

A lista de empresas que tomaram empréstimos ou realizaram transações suspeitas com a Reag só aumenta desde que o escândalo estourou, no fim de 2025. Agora, todas estão no radar da Polícia Federal. Entre elas, empreiteiras, produtores rurais e empresas do ramo de alimentos com negócios em Mato Grosso do Sul.

A reportagem do Jornal Midiamax teve acesso a alguns desses nomes e conseguiu falar com alguns. Embora ninguém aceite aparecer, o clima entre todos é de apreensão enquanto as investigações se desenrolam e o acordo de delação de Daniel Vorcaro avança.

Alguns dos implicados em Mato Grosso do Sul que chegaram a efetivar negócios com o ‘ecossistema’ bancário do Banco Master apontam que teriam sido ‘cooptados ‘convidados’ por um empresário para simular empréstimos dentro do esquema.

Fontes ouvidas pela reportagem apontam para um mesmo intermediador do esquema. Todos relatam que foram apresentados ao negócio suspeito por um ‘representante’ ligado aos ‘cabeças’ da Reag.

Ouvido pelo Jornal Midiamax, ele admite que intermediou conversas e chegou a levar empresários de Mato Grosso do Sul para a Reag, mas nega que tivesse conhecimento da natureza fraudulenta.

“Era um negócio bom, com vantagens muito acima do mercado, e tudo funcionando normalmente, então a gente não desconfia. A gente acredita que o sistema financeiro atua junto, fiscalizando e prevenindo esse tipo de coisa”, justifica.

Tudo consta em inquérito da Polícia Federal, que já recebeu farta documentação dessas empresas e está apurando o envolvimento de cada CNPJ no esquema de Vorcaro com o Banco Master.

‘Recrutador’ para esquema do Banco Master em MS

Conforme apurado pela reportagem, uma das supostas ‘vítimas’ do esquema em MS teria tomado um empréstimo no valor de R$ 400 milhões. O dinheiro de fato entrou numa conta bancária, mas para o empresário ‘sobrou’ cerca de R$ 10 milhões na conta.

O restante do dinheiro era ‘reinvestido’ em fundos administrados pela gestora Reag e, segundo as investigações, esses recursos eram usados para bancar créditos podres e inflar ativos financeiros.

Em outro caso, produtor rural obteve empréstimo de R$ 40 milhões. Mas, na verdade, a ‘parte’ dele era R$ 2 milhões, que foi o valor indicado como parte de uma propriedade que deixou como garantia.

Além disso, essas empresas investigadas pela PF juntas tomaram R$ 10,405 bilhões, que foram repassados ao fundo DMais, e outros R$ 8,379, que tiveram como destino o fundo Bravo, ambos geridos pela Reag.

A reportagem conversou com o suposto lobista, que negou. Disse que apenas ‘apresentou’ negócios a amigos empresários e reagiu: ‘Se fizeram falcatrua, é problema deles’.

Para onde ia o dinheiro?

Conforme apurado pela reportagem, o ‘carrossel financeiro’ funcionava na triangulação do dinheiro. O Master emprestava vultuosas quantias a essas empresas, que eram obrigadas a investir a maior parte do montante em cotas de fundos de investimento estruturados e geridos pela Reag.

Esta última, por sua vez, usava esse dinheiro para comprar ativos do próprio Banco Master, melhorando artificialmente os índices de capitalização perante o Banco Central.

Carbono Oculto mirou distribuidoras em MS

Uma das maiores ações de enfrentamento ao PCC, a operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, cumpriu mandados em Mato Grosso do Sul.

O núcleo da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) atuava com divisão específica de tarefas, mantendo separação entre a gestão operacional das usinas e a gestão financeira/patrimonial, utilizando fundos de investimento e empresas de participação para ocultar a origem e o destino dos recursos ilícitos.

Conforme o relatório, o grupo tinha sete distribuidoras em Iguatemi, sendo que uma das empresas investigadas, a Maximus, tinha o mesmo endereço da Safra Distribuidora de Petróleo S.A na cidade.

Em Iguatemi, o presidente é indicado como Armando Hussein Ali Mourad, irmão de Mohamad Hussein Mourad, conhecido como ‘Primo’, apontado como o ‘cabeça’ de todo o esquema, sendo um dos operadores ao lado de Roberto Augusto Leme da Silva, o ‘Beto Louco’.

Investigação contra sócio da Reag

Nos registros da Receita Federal, Gersztel aparece como representante legal de dezenas de CNPJs associados à Reag, que entrou em recuperação judicial logo após o Banco Master. Era por meio desses CNPJs que a empresa administrava os fundos de investimento agora investigados.

Parte desses fundos foi batizada com nomes de personagens da animação infantil Frozen (2013), da Disney. É o caso dos fundos Hans 95, Olaf 95 e Anna FIDC — nomes apropriados para estruturas jurídicas que portavam “dinheiro frio”, ou seja, de origem ilegal.

Gersztel e o resort da família Toffoli

O executivo da Reag Silvano Gersztel foi o representante de um fundo da gestora na compra de parte de um resort que pertenceu à família do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Gersztel também é investigado por ligação com a facção criminosa PCC, segundo a Polícia Federal.

Ele foi sócio da Reag por nove anos e renunciou ao cargo em meio às investigações que levaram à liquidação da empresa.

Gersztel foi alvo de busca e apreensão no contexto da Operação Carbono Oculto, que investigou a Reag por suposto envolvimento em esquema de combustíveis do PCC.

 

 

Fonte: Jornal Midiamax

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