Feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte por ex-noivo que a perseguia completa um ano

Ela foi a primeira vítima de feminicídio de 2025 em Campo Grande

365 dias se passaram e hoje, 12 de fevereiro, completa um ano do feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte. O caso ganhou repercussão nacional e levantou inúmeros debates sobre os atendimentos prestados às vítimas de violência doméstica em Mato Grosso do Sul. Ela foi a primeira vítima de feminicídio de 2025 em Campo Grande.

Era a tarde de uma quarta-feira quando as redações sul-mato-grossenses receberam a notícia de que uma mulher havia sido esfaqueada pelo seu companheiro, no bairro São Francisco, em Campo Grande.

No local, os profissionais de imprensa constataram que aquela mulher se tratava da jornalista, de 42 anos, servidora pública do MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul), que havia saído momentos antes da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).

Esfaqueada três vezes

Na madrugada do dia 12 de fevereiro, a jornalista havia ido até a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), acompanhada de um amigo, para registrar um boletim de ocorrência por agressão contra o seu ex-noivo, o músico Caio Nascimento.

Assim, no período da tarde, ela foi até a sua própria residência, acompanhada do mesmo amigo, a fim de pegar os seus pertences. No entanto, foi esfaqueada três vezes na região do tórax por Caio.

Na época, ela chegou a ser socorrida ainda com vida e encaminhada para a Santa Casa de Campo Grande, em estado gravíssimo, mas não resistiu e foi a óbito durante a noite.

Caio ao lado de Vanessa. (Reprodução, Redes Sociais)

Vizinho tentou socorrer Vanessa

Na data dos fatos, o Jornal Midiamax conversou com um vizinho de Vanessa, que ouviu toda gritaria e os pedidos de socorro. Ele subiu na grade do portão da casa dela e viu Caio desferindo golpes de faca no vidro de uma janela.

Em seguida, o morador chegou a gritar com ele para que não esfaqueasse a mulher, mas Caio ignorou.

O agressor então partiu para cima do vizinho, que estava na grade do portão tentando impedir o esfaqueamento. “Ele tentou vir para cima de mim, mas o portão estava fechado. Nisso, ele foi até ela e a esfaqueou”, relatou a testemunha.

Ainda conforme o relato do vizinho, a PM (Polícia Militar) foi acionada e chegou em menos de cinco minutos. Lá, os policiais arrombaram o portão do imóvel e Caio se entregou. Ele foi preso em flagrante.

Policiais fazendo reconstituição dias após o crime. (Foto: Layane Costa, Jornal Midiamax)

Onze registros por violência doméstica

No entanto, Vanessa Ricarte não foi a primeira vítima de Caio Nascimento. Isso porque, naquele momento, ele já acumulava onze registros por violência doméstica. E foi aí que muitas informações sobre o histórico criminal do então músico vieram à tona.

Os boletins de ocorrência começaram a ser registrados contra ele em 2020. Em um dos casos, uma ex-namorada foi parar na Santa Casa depois de ser agredida. A mulher teve queimaduras no rosto e braços, causados pelo que parecia ser fricção no asfalto.

Em 2023, ele teve outro registro na Deam por violência psicológica. Em fevereiro, a ex-mulher de Caio procurou a Deam depois de ser sistematicamente perseguida por ele. Na época, ele contou que conviveu com o autor por aproximadamente 11 anos, sendo que terminaram o relacionamento havia cerca de 2 anos e meio.

Ela ainda contou que o autor não aceitava o término; que, mesmo a vítima tendo um relacionamento com outra pessoa, o autor ficava querendo saber da sua vida e onde ela estava morando. O autor a agredia verbalmente, dizendo que ela seria uma criminosa, péssima mãe, um ser humano deplorável, doente e manipuladora, além de fazer ameaças contra ela, dizendo que a vítima não imaginava o que lhe aguardava.

Uma outra ex-companheira de Caio registrou vários boletins de ocorrência contra ele. Um dos registros foi em 2024, após a separação do casal. Na delegacia, ela disse que conviveu maritalmente com Caio por um ano e que sofria violência psicológica. A mulher havia solicitado medidas protetivas contra o músico.

Caio Nascimento. (Reprodução, Redes Sociais)

Postagens de fotos íntimas de Vanessa

Na delegacia, ainda enquanto buscava por ajuda, Vanessa chegou a relatar que o ex-noivo havia feito postagens, sem que ela soubesse e sem sua autorização, de fotos íntimas dela no Instagram.

Nas legendas das fotos publicadas por Caio, ele a injuriou, dizendo que a jornalista seria atriz pornô e que estava em uma plataforma de vídeos adultos com vários codinomes.

Conforme o relato de Vanessa, Caio usou de subterfúgio para que ela permitisse que ele a fotografasse nua. Segundo ela, o músico teria dito que a jornalista estava com o corpo todo cheio de hematomas.

Áudios apontaram descaso

Áudios gravados pela jornalista e enviados a uma amiga após sair da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) escancararam problemas relacionados aos atendimentos às vítimas de violência doméstica. Assim, a fala da vítima apontou descaso e erros grosseiros no atendimento que ela recebeu quando procurou ajuda.

Na época, a jornalista detalhou, pouco antes de ser assassinada, que esperava “chegar com a polícia” para tirar Caio da casa dela. Ela deixou registrado nas mensagens como se sentiu tratada por uma delegada “fria e seca” na delegacia criada justamente para acolher as mulheres em situação de vulnerabilidade.

A delegada teria se negado a comentar sobre o histórico de agressões do assassino e falou que a vítima “já sabia, porque ele mesmo havia falado de agressões”. “O jeito que ela me tratou foi bem prolixo. Bem fria e seca”, resumiu Vanessa Ricarte.

“Eu, que tenho instrução, escolaridade, fui tratada desta maneira. Imagina uma mulher vulnerável… essas que são mortas”, disse a jornalista em mensagem a uma amiga. “Tudo protege o cara, o agressor, resumiu.

Fonte: Jornal Midiamax

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